OS CINCO PONTOS DO ARMINIANISMO E A OPOSIÇÃO CALVINISTA

        Jacobus Arminius (1560-1609) foi um professor e pastor holandês. Sua educação se deu nas universidades de Marburg (1575) e Leiden (1576-1581), na Academia de Genebra (1582, 1584-1586) e na Universidade da Basiléia (1582-1583). Posteriormente, pastoreou uma congregação em Amsterdã (1588-1603) e atuou como professor na Universidade de Leiden a partir de 1603 até a sua morte em 1609.

        Arminius não escreveu uma teologia sistemática completa, mas tornou-se conhecido por se posicionar contrariamente a algumas doutrinas defendidas por Calvino. Deixou como legado um conjunto numeroso de escritos teológicos, produzidos desde 1588 até a sua morte. Vejamos:

  • Tratado sobre Romanos 7: onde interpreta os versículos 7-25 como o retrato de uma pessoa despertada, mas não regenerada.
  • Tratado sobre Romanos 9: nesse texto, ao contrário dos calvinistas que interpretam o texto ensinando a predestinação incondicional, Armínius interpretou como predestinação condicional.
  • Exame do Panfleto de Perkins: oferece uma resposta em termos de predestinação condicional como refutação à opinião do inglês William Perkins.
  • Declaração de Sentimentos: uma argumentação apresentada às autoridades do governo em Haia, onde refuta a opinião de que o destino de cada ser humano foi determinado de forma inexorável por Deus antes da queda de Adão, e outras publicações.

        Ainda que educado na tradição reformada, ele se inclinou para as doutrinas humanistas de Erasmo, porque tinha sérias dúvidas a respeito da graça soberana (de Deus), como era ensinada pelos reformadores. Seus discípulos, chamados arminianos ou sectários de Arminius, disseminaram o ensino de seu mestre. Alguns anos depois da morte de Arminius, eles formularam sua doutrina em cinco pontos principais, conhecidos como Os Cinco Pontos do Arminianismo (D. E. Spencer).

      1 – Livre-arbítrio – Vontade livre

     2 – Eleição condicional

     3 – Expiação ilimitada – Ou Expiação universal

     4 – Graça resistível 

     5 – Decair da Graça

        CALVINO E O CALVINISMO

        João Calvino (1509-1564) era francês e filho de um tabelião, que servia ao bispo de Noyon. Devido à atmosfera religiosa, seu pai o encaminhou para estudar teologia na Universidade de Paris. Posteriormente, por causa de uma controvérsia entre seu pai e o bispo, ele foi conduzido a estudar advocacia, a fim de defender a causa e interesses do pai. Estudou em Orléans e em Bourges, onde se tornou protestante.

        Com a morte do pai, retornou a Paris e envolveu-se com toda problemática religiosa. Dirigiu-se à Itália e, posteriormente, à Genebra-Suiça, onde fixou-se. Nesta cidade, publicou aos 26 anos de idade, as Institutas da Religião Cristã (1536), que representa o grande marco da teologia e da doutrina reformadas e presbiterianas. Essa obra passou por cinco edições, expandindo-se a partir de um pequeno volume com seis capítulos até atingir uma volumosa obra com setenta e nove capítulos.

        Além disso, Calvino escreveu comentários sobre 23 livros do AT, sobre todos os livros do NT, exceto o Apocalipse, assim como panfletos devocionais, doutrinários e de polêmica. Através da disseminação das suas obras, seus pensamentos teológicos, sociais e políticos têm influenciado cristãos e não-cristãos desde o século XVI.

        Como pastor e administrador da cidade de Genebra, ele fundou uma academia que produziu grande influência na Europa. A Academia de Genebra oferecia ensino gratuito para as crianças e também cursos superiores, sendo medicina e teologia os principais. Além da vanguarda de disponibilizar ensino público, Calvino implantou meios para melhoria de renda, serviço médico a domicílio, banheiros públicos e leis que refletiam princípios da Bíblia.

        Na verdade, Calvino foi o grande sistematizador da Reforma, pois reuniu a doutrina bíblica como nenhum outro homem fez. Foi eminentemente um teólogo bíblico, tendo utilizado seus conhecimentos humanísticos e jurídicos em favor de uma abordagem de interpretação gramático-histórica da Bíblia, deixando de lado a alegorização (interpretação figurada), a espiritualização e a moralização para a interpretação.

        O nome calvinismo foi em princípio um rótulo pejorativo criado pelos opositores da fé reformada. Os herdeiros da Reforma, contudo, aceitaram de bom grado esse apelido, reconhecendo nele um conjunto de doutrinas embasado no princípio da dependência total do ser humano na livre graça de Deus para a salvação.

        CINCO VERSUS CINCO

        Ao contrário do que muitos pensam, não foi João Calvino quem escreveu “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. Estes cinco pontos foram formulados pelo Sínodo de Dort, Sínodo este convocado pelos estados Gerais (da Holanda) e composto por um grupo de 84 Teólogos e 18 representantes seculares, entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro de 1618 até maio de 1619. Cerca de cinquenta anos após a morte de Calvino. Durante sete meses,  os cinco pontos formulados pelos arminianos foram examinados à luz da Bíblia. O resultado obtido demonstrou que eles eram irreconciliáveis com a Palavra de Deus. Daí, surgiu como contraponto os Cinco Pontos do Calvinismo (em honra ao grande teólogo francês, João Calvino).

        Primeiro Ponto

Arminianismo

Calvinismo

Livre Arbítrio

O homem, embora debilitado pela queda, não é totalmente incapaz de escolher o bem espiritual e pode exercer fé em Deus de forma a receber o evangelho e assim tomar posse da salvação para si mesmo.

     Depravação Total

O estado natural do homem é de total depravação, havendo total incapacidade do homem para obter ou contribuir a favor de sua própria salvação.

 

                    Textos bíblicos que fundamentam a doutrina reformada

Rm 5.12; II Tm 2.25-26; Mc 4.11-12; I Co 2.14; Sl 51.5; Gn 6.5; Jó 14.4; Jr 13.23; Ef. 2.1.

        Considerações

        Como consequência da queda, o ser humano está espiritualmente morto (Ef 2.1), sendo, portanto, incapaz de pelo seu próprio esforço crer no Evangelho. Devido ao pecado, sua vontade está escravizada e impedida de tomar decisão sábia na esfera espiritual (Ef 2.2). É preciso mais do que simples assistência do Espírito para se trazer um pecador a Cristo. É preciso a regeneração, pela qual o Espírito vivifica o pecador e lhe dá uma nova natureza. A fé não é algo que o homem dá (contribui) para a salvação, mas é ela própria parte do dom divino da salvação. É o dom de Deus para o pecador e não o dom do pecador para Deus.

      Segundo Ponto

Arminianismo

Calvinismo

Eleição Condicional

Deus elegeu aqueles que previa quererem ser salvos por seu próprio arbítrio e em seu estado natural caído.

 

 

 

Eleição Incondicional

 Como o homem é morto no pecado, ele é incapaz de iniciar resposta a Deus, portanto Deus desde a eternidade, antes da fundação do mundo, elegeu certas pessoas para salvação. A salvação não se baseia na capacidade do homem, nem do que ele faz, para que não tenha mérito, mas sim da eterna misericórdia e graça de Deus, a qual ele faz livremente de acordo com Sua Vontade.

                           Textos bíblicos que fundamentam a doutrina reformada

Dt 7.7; Rm 9.11-13; Lc 4.25-27; Jo 15.16; Rm 9.21; Rm 9.15; Ef 1.4-5; Rm 8.29; Ef 2.10; At 13.48; II Pd 1.10.

        Considerações

        A escolha divina das pessoas para a salvação, antes da fundação do mundo, é decorrente da soberania de Deus. Esta escolha não foi baseada em qualquer mérito ou ação realizada pelo ser humano, tais como obediência, piedade, fé ou arrependimento. Na verdade, Deus é quem dá a fé e o arrependimento a cada pessoa a quem ele escolheu. Assim, todas as respostas de fé e de arrependimento que o ser humano apresenta são o resultado e não a causa da escolha divina, isto é, a salvação não é a escolha que o pecador faz de Cristo, mas a escolha que Deus faz do pecador.

        Desse modo, a eleição não foi determinada, nem condicionada e nem apoiada por qualquer qualidade ou ato realizado pela pessoa, mas aqueles a quem Deus soberanamente elegeu. Ele os traz, através do poder do Espírito, a uma voluntária aceitação de Cristo.

        Terceiro Ponto

Arminianismo

Calvinismo

Expiação ilimitada  

Cristo morreu para salvar a todos os homens, mas só potencialmente. A morte de Cristo permitiu a Deus perdoar os pecadores, porém sob a condição de que cressem.

Expiação Limitada 

Cristo morreu positiva e eficazmente para salvar a um certo número de pecadores que mereciam o inferno, em quem o Pai já havia fixado seu amor graciosamente e por eleição.

                          Textos bíblicos que fundamentam a doutrina reformada

Rm 9.11; Ef 1.4; Jo 17.9; Mt 26.28; Ef 5.25; Rm 4.25; I Co 15.22; Is 53.11; Jo 6.37

       Considerações

        Cristo morreu eficazmente (ação que salva definitivamente) apenas pelos eleitos, apesar do valor da sua vida ser infinito (John Owen). Ele mesmo substituiu na cruz todos os pecadores eleitos por Deus. Com a sua morte, Cristo concedeu, mediante o Espírito Santo, o dom da fé como garantia da salvação. Sua morte tem poder para perdoar e salvar tantos quantos Deus quiser, mas a eficácia dela recai apenas sobre os eleitos.

        Quarto Ponto

Arminianismo

Calvinismo

Graça resistível 

     Quando o Espírito Santo inicia a obra de trazer uma pessoa a Cristo, ela pode resisti-lo eficazmente e frustrá-lo em seus propósitos. O Espírito Santo não pode dar vida se o pecador não estiver disposto a receber essa vida.

Graça Irresistível

      Quando o Evangelho atinge uma pessoa eleita, há, além de um chamado exterior, um chamado interior realizado pelo Espírito Santo. Esse chamado do Espírito Santo é irresistível, não pode ser frustrado com uma rejeição.

                            Textos bíblicos que fundamentam a doutrina reformada

Jo 6.37; Jo 6.44; Jo 6.45; Rm 8.14; Gl 1.15; I Pd 2.9; I Pd 5.10.

         Considerações

        Através da pregação da Palavra, todos os pecadores, eleitos ou não, recebem uma chamada externa à salvação. Porém, o Espírito Santo concede adicionalmente aos eleitos uma chamada especial interna, a qual de forma inevitável os conduz à salvação. Enquanto a chamada exterior pode ser recusada, a interior não pode ser rejeitada, resultando sempre em conversão. É um convite irrecusável, decorrente de uma graça que é invencível. Assim, esta chamada interna não é, por um lado, limitada em sua aplicação pelo ser humano, nem, por outro lado, cooperada por ele.

        Quinto Ponto

Arminianismo

Calvinismo

Cair da Graça

O homem salvo pode perder a salvação.

 

 

 

 

 

Perseverança dos Santos 

Aqueles a quem Deus aceitou no Amado, eficazmente chamados e santificados por seu Espírito, e a quem deu a fé preciosa de seus eleitos, não podem cair total ou cabalmente do estado de graça, mas certamente perseverarão nela até o fim, e serão eternamente salvos, visto que os dons e chamados de Deus são irrevogáveis.

                        Textos bíblicos que fundamentam a doutrina reformada

Rm 8.29-31, 38-39; Fp 1.6; Jo 6.39; Jo 10.28; Rm 5.10; Rm 8.1; Rm 8.28-39.

        Considerações

        Todas as pessoas escolhidas por Deus recebem do Espírito Santo a fé e são salvas. Isto é um processo irreversível. O processo que acontece é chamado por Paulo de adoção.(Gl 4.5; Ef 1.5) Assim, uma vez adotados na família de Deus através de Cristo, não existe a possibilidade de deixar de ser filho. Elas são guardadas e mantidas na fé pelo poder de Deus, que é Todo Poderoso para guardá-las até o fim. Como a obra de Cristo na cruz foi completa, não dependendo da contribuição humana, então não é preciso cooperação alguma para guardar a salvação. Mais ainda, sendo Deus onisciente, o perdão que é concedido é de toda uma vida, pois o futuro não está encoberto para Ele. Logo, o salvo em Cristo recebeu perdão pleno o que lhe concede perseverança segura da salvação.

        Conclusão:

        Ao longo dos anos, a teologia sistematizada por Calvino sofreu, através dos seus seguidores, um desenvolvimento nas suas ideias. Isso começou pelo próprio Calvino quando ampliou as ideias das Institutas originais. O desenvolvimento continuou nas elaborações das várias confissões calvinistas (Catecismo de Heidelberg, Cânones do Sínodo de Dort, Confissão de Fé de Westminster, Declaração de Savoy) e pelas considerações teológicas concebidas por vários teólogos nos pontos que Calvino havia abordado vagamente ou se omitido.

       Lembre sempre que não se trata de “inventar doutrina”, mas de fundamentações seguras de interpretações das Escrituras. Fazer teologia é saber aplicar sabia e coerentemente os princípios da Palavra revelada por Deus à realidade que estamos vivenciando. Assim, a teologia continua sendo a vida da igreja. Louvado seja o Senhor por sua infinita graça!

Por Rev. Ronaldo P.  Mendes

(Alguns livros para saber mais: TULIP – Duane Edward Spencer;  As três formas de unidade das igrejas Reformadas – Ed. Os puritanos; Os cinco pontos do Calvinismo- W. J. Seaton – Ed.PES; Os cinco pontos do Arminianismo – Ivan de Oliveira, Ed.Reflexão; Teologia Sistemática – Wayne Grudem; Por quem Cristo morreu?- John Owen, Ed. PES; Calvinismo e Arminianismo Evangélico – Jhon L. Girardeau,Ed. Primícias

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