O PENSAMENTO SISTÊMICO E O ACONSELHAMENTO PASTORAL

O pensamento sistêmico é uma forma de abordagem da realidade que surgiu no século XX, em contraposição ao pensamento reducionista, ou cartesiano, que visava a fragmentação. É a capacidade de identificar as ligações de fatos particulares do sistema como um todo. Um sistema é composto por partes e todas essas partes se relacionam de forma direta ou indireta. E um sistema pode abrigar outro sistema. Esse pensamento é contextual e analisa o fenômeno colocando-o no contexto mais amplo, percebendo suas relações, interconexões e multidimensões.

Todos nós fazemos parte de muitos sistemas – nossa família, nossa comunidade, nosso estado, o lugar onde nós trabalhamos etc. Estes são apenas alguns sistemas. O modelo sistêmico diz respeito a uma estrutura útil que busca melhorias. Porém, quando uma das partes de um sistema não funciona bem, afeta diretamente todas as partes de outros sistemas com grau maior ou menor de influência. Por exemplo: eu vou pintar o quarto da minha filha, mas derramo toda tinta na cama e no chão. Minha ação influenciou negativamente o “sistema cama quarto”. Este, por sua vez, influencia meu “sistema esposa” que discute comigo. Vou embora aborrecido para o “sistema trabalho” e fico irritado com o “sistema trânsito” por estar um pouco mais lento como o de costume. Assim, com meu equilíbrio afetado por esses três sistemas, acabo perdendo a paciência com o “sistema colega de trabalho”. Consequentemente o meu “sistema chefe” chama minha atenção. Isso vai longe, mas é só pra termos uma ideia como a vida de ralação funciona. Com isso podemos dizer que um sistema é constituído por um conjunto de partes que se influenciam reciprocamente. Tudo está interligado e se influencia mutuamente.

Esse pensamento propõe a visão do todo e suas interações, verificando-se as diversas partes envolvidas no problema, pois estas mesmas partes podem contribuir também para a solução. Essa forma de pensar não lida apenas com a pessoa de forma individual, mas também, com o seu contexto e as relações que ali existem. É a capacidade de identificar as ligações de fatos particulares do sistema como um todo.

Como é possível utilizar a visão sistêmica para compreender e auxiliar as famílias, casais e indivíduos  no aconselhamento pastoral?

O pensamento sistêmico é uma ferramenta muito útil para compreendermos melhor os problemas que surgem num contexto familiar. Com essa forma de pensar, ao invés de avaliarmos somente o indivíduo, observamos o contexto onde ele está inserido, ampliamos o foco para as relações que estão acontecendo. Assim, o foco não é mais encontrar o “culpado”, reduzindo a explicação dos fatos a uma forma simplista. Passamos a analisar os sistemas complexos e suas múltiplas interações. Isso nos fará compreender melhor o problema de cada pessoa.

A boa compreensão de como funciona esse Sistema em uma família, nos fará entender e poder ajudar de forma correta, alguns problemas ou traumas familiares. Por exemplo: um adulto de 40 anos que não trabalha, não estuda e ainda vive com os pais, se analisado isoladamente será visto como inadequado. Porém em seu contexto familiar ele pode ser funcional ou adequado, pois auxilia na manutenção do equilíbrio da família. A família “precisa” que este membro continue dependente, pois se ele sair de casa, estudar e trabalhar, o sistema ficará desequilibrado, o casal terá que se enfrentar e tratar dos assuntos “intocáveis”. Não conhecer o sistema dificulta o aconselhamento.

O pensamento sistêmico é importante para ampliar o olhar do conselheiro. Em geral a família busca ajuda por questões relacionadas aos filhos, como se eles fossem os detentores dos problemas. Assim, o conselheiro com a visão sistêmica, incluirá outros membros da família na investigação e tratamento das dificuldades encontradas nesse lar. Ele analisará se esse fato já aconteceu antes ou se houve algum fato que desencadeou tais problemas.

A visão sistêmica e os padrões de repetição familiares

Ao se analisar as histórias de Abraão, Isaque e Jacó, pode-se constatar alguns padrões familiares que se repetem ao longo das gerações. Observe o relato bíblico:  “Quando se aproximava do Egito, quase ao entrar, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és mulher de formosa aparência; os egípcios, quando te virem, vão dizer: É a mulher dele e me matarão, deixando-te com vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que me considerem por amor de ti e, por tua causa, me conservem a vida.”.(Gn 12.11-13).

Ele dizia que Sara, sua mulher, era sua irmã. Então Abimeleque, rei de Gerar, mandou buscar Sara e tomou-a para si.

Certa noite o Senhor Deus veio a Abimeleque num sonho e lhe disse: Vais ser punido de morte por causa da mulher que tomaste, porque ela tem marido. Ora, Abimeleque ainda não a havia possuído; por isso, disse: Senhor, matarás até uma nação inocente? Não foi ele mesmo que me disse: É minha irmã? E ela também me disse: Ele é meu irmão. Com sinceridade de coração e na minha inocência, foi que eu fiz isso. Respondeu-lhe Deus em sonho: Bem sei que com sinceridade de coração fizeste isso; daí o ter impedido eu de pecares contra mim e não te permiti que a tocasses. Agora, pois, restitui a mulher a seu marido, pois ele é profeta e intercederá por ti, e viverás; se, porém, não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu.”.(Gn 20.1-7)

Agora veja a história de Isaque, filho de Abraão, e de sua esposa Rebeca. O padrão de repetição é tão semelhante que, muitas vezes as duas histórias parecem confundir os leitores. “Considerava ele ainda, quando saiu Rebeca, filha de Betuel, filho de Milca, mulher de Naor, irmão de Abraão, trazendo um cântaro ao ombro. A moça era mui formosa de aparência...”(Gn 24.15-16).

Quando os homens do lugar lhe perguntaram sobre a sua mulher, ele disse: “Ela é minha irmã”(Gn 26.7). Teve medo de dizer que era sua mulher, pois pensou: “os homens do lugar não me matem por amor de Rebeca, porque era formosa de aparência.”. Isaque estava em Gerar já fazia muito tempo. Certo dia, Abimeleque, rei dos filisteus, estava olhando do alto de uma janela quando viu Isaque acariciando Rebeca, sua mulher.

Então Abimeleque chamou Isaque e lhe disse: “É evidente que ela é tua esposa; como, pois, disseste: É minha irmã? Respondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: para que eu não morra por causa dela.”(v.9). E disse Abimeleque: “Que é isso que nos fizeste? Facilmente algum do povo teria abusado de tua mulher, e tu, atraído sobre nós grave delito.”(v.10).

Por estes relatos percebe-se que tanto Abraão como seu filho Isaque, amaram e se casaram com mulheres muito bonitas. Ambos disseram que as esposas eram suas irmãs, por temerem ser mortos pelo rei, por causa da beleza delas. Nas duas histórias as mulheres foram desejadas pelos reis, porém o Senhor os impediu de toma-las.

Jacó, neto de Abraão, também amou uma bela mulher, chamada Raquel que: “…era formosa de porte e de semblante” (Gn 29.17).

Outro padrão que se repete nesta família é que as mulheres eram estéreis: “Ora, Sarai era estéril; não tinha filhos.”(Gn 11.30); “Raquel,.. era estéril.”(Gn 29.31).

O relato de Gênesis demonstra também que as três gerações de mulheres estéreis, além de belas, foram, posteriormente, abençoadas com a maternidade.

Podemos extrair muitas informações da história de Abraão, Isaque e Jacó, analisando por meio delas os padrões relevantes a respeito de: doença (esterilidade), relacionamentos intrafamiliares (preferência dos pais por determinado filho / amor do marido pela esposa), engano e mentira.

O Senhor abençoou esta família e cumpriu a promessa feita à Abraão: de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.”(Gn 12.2-3). Este texto também corrobora com a visão sistêmica, uma vez que a bênção dada a Abraão é estendida à todas as gerações posteriores.

Tudo isso dará ao conselheiro uma visão excelente do contexto, e consequentemente o ajudará no cuidado da família ou casais com problemas.

Compreender o funcionamento das relações humanas, em particular das famílias é de fundamental importância ao se trabalhar em cuidado pastoral. É objetivo do pensamento sistêmico é pensar em relações.

O cuidado pastoral tem por objetivo ajudar as pessoas a seus problemas e dificuldades, dando a elas uma nova direção. Esse cuidado é de extrema importância para o bem-estar da família. E é de extrema importância que o conselheiro compreenda quais são as formas de pensamento que podem auxiliá-lo na tarefa desse cuidado.  E isso ele poderá obter do pensamento sistêmico. Compreenderá que cada indivíduo tem um contexto de múltiplos relacionamentos que o influenciam direta ou indiretamente. O conselheiro poderá analisar quais fatores compõem a causa daquilo que não está funcionando corretamente na família e assim poderá ajudar de forma eficiente.

A visão sistêmica levará o conselheiro considerar o que o indivíduo já viveu, como se relaciona com sua família, qual seu histórico familiar, e se este histórico ainda influencia a vida familiar, qual o ciclo de vida em que a família se encontra, quais as pessoas que estão próximas dessa família ou casal. Esse processo ajudará o conselheiro a encontrar fatores que podem estar contribuindo para os conflitos na família, ou na vida do casal. É importante resaltar que quanto mais a família souber de sua história melhor vai lidar com conflitos.

A falta da compreensão do sistema pode desenvolver uma visão parcial e fraca da realidade de uma família. Trabalhando-se o todo e as relações entre as partes, desenvolve-se a habilidade de se olhar um sistema de maneira completa, construindo, em parceria, novas possibilidades de solução dos problemas apresentados. A visão sistêmica nos fará compreender que, muitas vezes, a família toda pode ser responsável pelo surgimento, manutenção de um problema.

O pensamento sistêmico é uma forma eficiente de compreender os conflitos que surgem na vida de um casal ou da família como um todo. Amplia o foco e faz entender que o indivíduo não é o único responsável por ser portador de um problema, mas sim que existem relações que mantém este problema.

Isso também nos leva a compreender como uma ação errada pode trazer consequências horríveis, não somente para o cônjuge, mas para a família e todos a nossa volta. Como citamos o exemplo da pintura do quarto da minha filha.

O ser humano está ligado em uma imensa teia de relações que ele mesmo cria e necessita para viver, crescer, aprender e evoluir. As relações que uma pessoa tem influenciam sua vida em todos os sentidos, principalmente os relacionamentos familiares, onde se encontram as relações mais íntimas e próximas. O pensamento sistêmico se torna muito útil nesta compreensão do relacionamento humano. No entanto o conselheiro não deve, de forma alguma, retirar a responsabilidade de uma pessoa aconselhada que esteja passando por um problema. A visão sistêmica é uma ferramenta para compreendermos o contexto familiar e podermos ajudar de forma eficiente. Não podemos, porém, jogar toda a culpa das mazelas familiares ou conjugais no sistema, retirando do indivíduo a responsabilidade de fazer o que é certo. Por isso que, juntamente com o pensamento sistêmico, deve haver a dependência de Deus e ação do Espírito Santo por meio da Palavra de Deus (cf Hb 4.12; Jo 15.5).

Por Rev. Ronaldo P. Mendes

Fontes de pesquisa: Maria José Esteves de Vasconcelos  – Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência, Campinas, São Paulo; Karla Suenson Sales  “Aconselhamento Familiar”.; Patrícia Lopes Dantas Pensamento Sistêmico;  Anadir Thomé Oliari – Aconselhamento- Construindo relacionamentos significativos, Ed, Eden, Curitiba.

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