ALCANÇANDO UMA ESPIRITUALIDADE TRANSFORMADORA

O que é ser espiritual? Tradicionalmente somos ensinados que espiritualidade tem a ver apenas com a vida interior, a intimidade individual com Deus. Também pode ser percebida nas atividades espirituais que fazem parte da igreja como a “oração”, “jejum” etc.  Além disso, pensamos em vida espiritual como a realização de “boas obras” para o Reino. No entanto, não podemos restringir espiritualidade apenas nesses pontos. Espiritualidade é muito mais do que atos religiosos.

O conceito de espiritualidade

Qual é o caminho para uma vida santa e agradável a Deus? Ser espiritual significa não ter pecados, ser perfeito?

Podemos dizer que espiritualidade é uma “vida interior” transformada e que tem início na conversão. Essa “nova vida” vai além de uma conduta externa, mais do que uma mera religiosidade. Não somos perfeitos, ou devemos pregar a perfeição nessa vida. Somos transformados a cada dia. Temos nossos acertos, erros, alegrias, fracassos. Mas quando salvos em Cristo, caminhamos para a perfeição dando cada dia um passo. Conforme Helmut Renders:

“… espiritualidade combina uma percepção da presença de Deus no dia-a-dia ou cotidiano com o exercício da prudência, sem perda da noção de que esse exercício humano se baseia na graça divina. O uso dessa prudência torna as pessoas – a partir da dupla experiência da vida e de Deus – sábias virtuosas e éticas… a espiritualidade é um conjunto que envolve uma percepção da necessidade da presença providencial da graça e do compromisso humano de querer usar as suas faculdades para se tornar sábio e virtuoso, ou seja,… como processo contínuo de amadurecimento das suas condutas.”(Helmut Renders – O Plano para a Vida e a Missão e sua espiritualidade correspondente Um novo olhar numa questão essencial – pg 90)

Para Jesus, ser espiritual tinha, na verdade, uma profunda e indissolúvel relação com a assimilação dos conceitos e verdades da Palavra e a presença de Deus no coração.

Assim espiritualidade é ter a mente e o coração transformados por Deus. Uma conduta diferente do mundo (cf Rm 12.2). Mas uma conduta dentro desse mundo (cf Jo 17.15). É um constante andar na presença de Deus. O simples fato de ser um religioso não faz ninguém espiritual. Espiritualidade significa reconhecer que somos fracos pecadores, mas dependentes da graça de Deus.

Humanos, porém espirituais.

Ser “humano” significa ser frágil e limitado pelo pecado. Quando encontramos com Cristo e nossa vida é transformada. No entanto, ainda temos que continuar com essa “fragilidade”, “limitação”. Podemos ver isso na vida do apóstolo Paulo. Era pecador, um implacável perseguidor da igreja (cf At 8.3). Um dia Cristo se revelou a ele (At 9.1-8). Porém Paulo não se tornou um supercrente. Ele tinha suas fraquezas e lutas, seus pecados e desejos: “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.”(Rm 7.19-20).

Aqui entra a questão: mesmo com nossa natureza propensa ao pecado é possível vivermos uma vida santa diante de Deus. Paulo viveu assim. Mas o que não podemos ignorar é essa realidade: “ser espiritual diante da complexidade do que implica ser humano” (Jonathan Menezes- FTSA) . Ser humano e ser espiritual são duas faces da mesma moeda. Ser conduzido pelo Espírito Santo não significa viver afastado da nossa velha natureza. Mas viver em novidade de vida mesmo que sejamos imperfeitos (cf Rm 6.4).

Ser espiritual significa reconhecer nossa fragilidade. Somos limitados e não há em nós força alguma. Não somos detentores do poder de Deus, somos dependentes desse poder. A fraqueza – seja ela em que dimensão se apresentar – é condição de nossa continuidade na graça, de nossa dependência de Cristo, do aperfeiçoamento de seu poder em nós, como pessoas a serviço do Reino.

Santidade na vida prática

A verdadeira espiritualidade está ligada a uma vida de santificação (cf Lv 20.7). Trata-se da separação e renúncia daquilo que é impuro, mau e profano, dedicando-se a uma vida de devoção e consagração total à Deus. A palavra hebraica para “santo”(kadosh), pode ser também traduzida por “separado”. Mas não se refere a uma separação como “mosteiro” ou mesmo a criação de uma “cultura  gospel” separada do mundo. O apóstolo Pedro escreveu: “… é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.”(1Pe 1.15-16). Santidade é uma qualidade exclusiva de Deus e é o próprio Deus quem nos santifica. É ele quem nos faz diferente. E essa diferença não está em ser um “mero religioso”,  um “santo-beato”. Ser santo é um alvo que todo crente deve buscar. Devemos reconhecer que somos pecadores e que dependemos completamente da ação de Deus para nossa santificação. Viver sempre em inconformidade com os pecados do mundo, porém não buscando forças em nós mesmos, mas em Deus (cf Fp 4.13).

Estarmos no mundo, mas não pertencermos a ele. Vivemos nesse mundo, mas com o coração lá no alto onde Cristo vive (cf Cl 3.2). Essa foi a oração de Jesus: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou.Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.”(Jo 17.15-17). Somos santificados pela Palavra para viver uma vida agradável a ele mesmo nesse mundo. A Palavra de Deus é o instrumento da nossa santificação (v. 17). Sem o conhecimento da Palavra não há crescimento espiritual.

Em Efésios lemos: “… enchei-vos do Espírito”(Ef. 5.18). Aquele que está em Cristo é selado com o Espírito Santo (cf Ef 1.13-14). Ou seja, a presença do Espírito no coração é o sinal de que possuímos uma vida cristã. No entanto, esse “encher-se” do Espírito é contínuo. Devemos buscar uma vida de intimidade com Deus (cf  Jo 14.16,26; 16.12-15; 17.17; Cl 3.15-16).

Porém, o processo de santidade, o deixar ser “guiado” pelo Espírito Santo, não é algo fácil. Muitas vezes é um processo doloroso, mas necessário. Às vezes somos tentados pelo diabo a desistir. Ou até mesmo por nossas próprias fraquezas somos levados a não buscar uma vida santa. Mas é no deserto que aprimoramos nossas forças. E o Espírito Santo é a energia divina que nos conduz ao deserto, e nos capacita a passar por ele. Nós somos fracos e totalmente dependentes da ação do Espírito Santo na nossa santificação.

Nessa caminhada rumo à uma vida santa, fé e dúvidas andam de mãos dadas. Abraão foi chamado “pai de todos os que crêem”(Rm 4.11), no entanto teve seus momentos de dúvidas e desânimos. Mas guiado pelo Espírito Santo, agradou a Deus.

CONCLUSÃO

Quando compreendermos o que significa “espiritualidade” segundo a Palavra de Deus, seremos agentes transformadores na sociedade. Ser espiritual não significa perfeição. Tornamos-nos mais espirituais quando reconhecemos nossa fragilidade, nossas fraquezas e que somos totalmente dependentes da ação do Espírito Santo em nossas vidas para alcançarmos a santidade.

Ter uma vida espiritual é ter a mente e o coração transformados por Deus. É viver uma vida diferente do mundo, mas não fora desse mundo (cf Jo 17.15). É andar sempre na presença de Deus num processo de santificação. O simples fato de sermos religiosos não nos faz espirituais. É preciso ter vida guiada pelo Espírito Santo. Não pensemos que ser santo signifique uma separação como “mosteiro” ou mesmo a criação de uma “cultura  gospel” separada do mundo. Deus nos chamou para sermos santos no mundo e não fora dele. Somos santificados pela Palavra para viver uma vida agradável a Deus nesse mundo. É certo que virão dúvidas e medo. Mas isso faz parte do processo de santificação, pois “… o poder se aperfeiçoa na fraqueza.”(2Co 12.9).

 

Por Rev. Ronaldo P. Mendes

*Parte do estudo apresentado a Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina-PR como avaliação na disciplina de Espiritualidade Transformadora do curso de Pós-graduação em Aconselhamento Cristão Contemporâneo.  

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